O trabalhador portuário e a tecnologia
A imprensa tem noticiado com freqüência queixas de trabalhadores portuários contra os sistemas de escala e ponto eletrônicos, principalmente no porto de Santos. Já houve ameaças de tumulto e quebra-quebra, que provocaram inúmeros adiamentos na implantação efetiva do sistema, com a complacência da Justiça do Trabalho. Mas uma crítica em particular, que periodicamente volta à baila, é a de que o sistema “não lê corretamente as informações” e por isso “prejudica trabalhadores”. Já se disse mesmo que a escala eletrônica “pode até funcionar em portos pequenos, mas é um método inadequado para o porto de Santos”.
Essa postura é preocupante, por duas razões: em primeiro lugar, porque revela uma total falta de preparo – e pior, de disposição - dos trabalhadores para lidarem com a tecnologia, o que, em se tratando da atividade portuária, é um fato muito grave; em segundo, porque sugere pressões para conservar a todo custo práticas clientelistas e favorecimentos que durante décadas se enraizaram no trabalho portuário, constituindo um fator decisivo para a baixa produtividade desses serviços no Brasil.
O argumento técnico usado pelos trabalhadores não resiste a uma análise séria. Se há uma coisa que computador faz melhor do que o homem, até porque foi concebido pelo homem para isto, é processar dados e efetuar cálculos. É claro que pode haver erros de programação ou de digitação de dados, mas são falhas facilmente corrigíveis e em nenhuma circunstância podem servir de pretexto para condenar o sistema. Justamente por Santos ter um grande contingente de trabalhadores, é recomendável – sobretudo do ponto de vista da transparência administrativa - que os procedimentos relacionados à escala e ao ponto não sejam manuais.
Reconheçamos, então, que a questão é política. Melhor dizendo, micropolítica, pois o que está em jogo são interesses específicos de grupos muito pequenos se comparados ao universo dos trabalhadores brasileiros. O trabalhador brasileiro médio já entendeu que, na sociedade globalizada da informação, computadores são uma ferramenta de trabalho obrigatória em qualquer atividade. Já entendeu também que usar de todos os meios para “garantir sua vaga” – a velha luta pela estabilidade no emprego – é uma estratégia menos eficaz a longo prazo do que qualificar-se sempre mais e manter-se em dia com a tecnologia. A valorização pessoal, e também de grupo, dá mais resultados e resulta em melhores salários do que a queda-de-braço pela manutenção de privilégios.
Nem os funcionários públicos têm hoje a estabilidade que os trabalhadores avulsos têm. A inexistência do vínculo empregatício, na atividade portuária, funciona somente a favor das elites sindicais de trabalhadores, e nunca a favor dos tomadores de serviço. Não há trabalhador portuário, por mais relapso ou incompetente, que tenha sido sequer ameaçado de exclusão dos quadros do Órgão Gestor de Mão-de-Obra por motivos disciplinares ou de ordem estritamente profissional. Não é por outra razão que as lideranças sindicais estão jogando pesado para preservar esse status quo, inclusive fazendo pressões sobre o Ministério do Trabalho, o Congresso Nacional, o Ministério Público do Trabalho e a própria Justiça.
O exemplo da atual estrutura do trabalho portuário, que a Lei de Modernização dos Portos tentou mas ainda não conseguiu mudar, é dos piores possíveis para os jovens eventualmente interessados em ingressar na atividade. Valores como assiduidade, competência profissional e vontade de aprender não são cultivados. Em lugar deles o que se vê são políticas de compadrio e incentivo ao espírito de corpo apenas para acobertar a ineficiência, a negligência e o total descompromisso com os resultados do trabalho.
Essa mentalidade precisa mudar. Se o trabalhador portuário permanecer desconectado das demandas da atualidade, agindo como se ainda vivêssemos no “milagre brasileiro”, com emprego farto para todos, o comércio exterior e a economia brasileira como um todo pagarão caro por isso.
(artigo publicado na edição da 1ª quinzena de novembro
do Guia Marítimo).